segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Um poema pra noite que começa

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Entre...

Entre...
A porta está aberta...

(RE) Invento

"A partir de agora, decreto férias de mim. Talvez estas sejam na verdade as minhas primeiras férias, ou melhor, uma carta de demissão: dos meus medos e cansaços, dos meus labirintos. Decidi ir pra longe dos meus habituais enganos, das minhas falas decoradas, das minhas previsíveis ruas-sem-saída. Vou deixar em minha mesa todos os apegos e irei para o lado contrário das mágoas; ainda que na contramão. Vou para bem distante das minhas já manjadas muletas e reações alérgicas emocionais; da minha (própria) cara de reprovação. Viajarei mesmo pra longe; para o lado de mim que pouco lembrava e que senti por tanto tempo saudades. Vou levar o coração pra tomar sol, abrir janela para arejar certezas, vou arranjar um romance ardente comigo mesmo. Sairei para saber o que deixei pra lá, aceitarei convites e atenderei a convocação dos meus amanhãs. E chegando lá, vou fazer minha programação: acordar bem cedinho para as verdades, alimentando-me de levezas e boa companhia, seja a dos passarinhos ou de mim mesmo. Vou fazer passeios por lugares esquecidos de dentro; só pretendo não passear pelos museus. Vou visitar sonhos novos em folha que esqueci amarrotados entre os dias por me ocupar demais. E dessa vez não vou economizar. Vou me gastar e me desgastar até me ganhar mais uma vez. Não posso mais me poupar de tanto que me poupei, nem represar futuros que me pertencem. Daqui em diante, só vou assumir aquilo que fizer parte do meu show. O que não fizer, deixarei para sempre dentro do almoxarifado. Não posso ficar sentado fazendo hora-extra para as tristezas, aceitando o peso da rotina, engolindo sapos, deixando a preguiça e o desencanto cuidarem do meu expediente. Não vou mais me permitir clausuras que um dia voluntariamente me permiti entrar. Vou reaprender novos e velhos oficios da Alma, redescobrir levezas, gostar de mim, ser sereno num despretensioso hoje. E o que não puder reciclar, reinvento. Porque não mais aceitarei o assédio moral das minhas sombras, das minhas covardias e inseguranças. Vou tomar café quentinho com o meu lado criativo e esperançoso. Vou promover o meu amor-próprio. Vou admitir o meu perdão. E qualquer coisa, podem me ligar, convocar-me de volta por fax, e-mail, cartinha. Somente irei responder às minhas verdades. Só vou atender aos compromissos que me interessam. Fui ser feliz, e quem sabe, não volte mais."

Guilherme Antunes

segunda-feira, 18 de março de 2013

Vá explicar...



Ah! Se a vida fosse regida pela lógica... Ah! Se tomar consciência de algo fosse o suficiente para abandonarmos o que, aparentemente, nos incomoda. Tanta coisa que a gente sabe, mas saber não é o bastante para nos fazer mudar. Tanta coisa que a racionalidade impera em nos dizer que não é o certo, mas a inconsequência do fazer nos impulsiona a repetir. Vá explicar...

A gente fuma por que o prazer do tabaco ainda é maior do que a dor que ele pode causar. É na certeza de que não seremos vítimas premiadas de um pulmão cinzentamente inutilizado que continuamos a encher nossa vida de fumaça tóxica, por que parece que, dessa maneira, uma nuvem esconde a luz ofuscante dos nossos nós. Vá explicar...

A gente tem clareza de ideias, enxerga com olhos de águia, escuta quando nos é conveniente, mas em matéria de ação, somos impelidos a recuar ou a desviar do caminho que nos parece correto. Parece que nosso “guia maior”, “aquele” que fala por nós mesmos quando estamos em silêncio, supera a coerência em busca de realização daquilo que é tudo aquilo que jamais faria parte de nós. Aí tudo fica sem sentido, a gente não sabe o porquê, não encontra um motivo, mas apenas e tão somente – faz. Vá explicar...

A gente brinca com a vida como se o amanhã não chegasse, como se, errando hoje, não fôssemos receber a conta atrasada amanhã. A gente brinca com as pessoas como se elas fossem personagens de um “jogo de faz de contas”, mas exigimos dos outros regras duras e rigidez nas relações. A gente quer amor, mas fabrica diariamente produtos da discórdia e da desunião. Vá explicar...

A gente adia, protela, procrastina, mas exige o resultado diferente do que plantou. A gente se olha no espelho, constata as rugas do tempo na face encoberta pela “aparência nada mais” e ainda assim escolhe a maquiagem ideal para continuar disfarçando os sulcos da frustração de não ser. Vá explicar...

A gente é consciente do fim da vida, mas vive como se não fosse morrer. Abusa da sorte, confia no acaso, maltrata o corpo, mas pede saúde a Deus quando a ínfima dor física mostra a cara. Promessas de reeducação, barganha de desespero, negociações de qualquer preço para retomar a homeostase. Entretanto, quando o sintoma desaparece, voltamos a usufruir dos excessos e aquela “dorzinha insignificante” fica no passado, de preferência, num espaço totalmente inatingível ao nosso acesso. Vá explicar...
A gente sofre por amor, a gente ama por sofrer, mas sempre acabamos buscando um jeitinho de não fugir desse ciclo, mesmo que a vida nos ofereça algo diferente. Sem amor, sofremos; amando, também... Tudo por não conseguir reunir na vida vivida o encontro difícil entre a fantasia e o real. Vá explicar...

A gente usa a memória como depósito de mágoas, mas temos o esquecimento como arma para anular o bem feito, em detrimento dos detalhes imperfeitos. A gente não quer lembrar de esquecer, mas quer esquecer de lembrar da nossa responsabilidade pessoal de fazer. Vá explicar...

Vá explicar... Melhor nem tentar... Explicando não nos livraremos das consequências do inexplicável. Inexoravelmente, cairemos no discurso vazio da verdade absoluta. Por que verdade é tudo aquilo que nossos olhos enxergam. Verdade é tudo aquilo que nossos ouvidos desejam escutar, é tudo aquilo que é dito no meio do calado, em palavras indizíveis, em mentiras verdadeiramente acreditadas... Vá explicar...
Texto de Cristina Hahn

 

sexta-feira, 8 de março de 2013

Quieto...Assim, quieto

"Passava os dias ali, quieto, no meio das coisas miudas. E me encantei."
 Manoel de Barros.
Estou deixando o coração aquietar e voltar a sonhar. Os dias nublados estão passando e já não costumo olhar tanto para o tempo que vai escorregando ladeira abaixo no jeito brejeiro de menina teimosa. Estou buscando as preciosidades que fui perdendo no nevoeiro. E já posso sentir o vento levando as folhas desse outono na minha estação do viver. Andei conferindo as coisas miudas, engavetei algumas necessárias, outras fui descartando. Já não sei se servem nesse corpo que cresceu, nesse pensamento quieto que não se inquieta tanto quando não vê o entardecer. Me encantei com o jogo do contente, a sonoridade de uma voz, a cantiga antiga no som de um carro que passou na rua. Me vi menina, descendo a ladeira do Icó num Jeep antigo, balançando os cabelos e sonhando com viagens que nunca fez. Encontrei-me quietinha buscando uma baladeira para correr em busca de um passáro que voou pra longe. Me encantei com as lembranças, os cheiros da infância, o doce de coco com mamão, a paçoca de pilão, o cheiro das castanhas e a coreografia da tarde nos quintais. Voltei!!! Não sei se quero sair desse estágio, dessa nova quietude, desse encantamento.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

2012 Fechando um livro

Quando 2012 começou, ele era todo seu.
Foi colocado em suas mãos...

Você podia fazer dele o que quisesse...
Era como um livro em branco, e nele você podia colocar um poema, um
pesadelo, uma blasfêmia, uma oração. Podia...
Hoje não pode mais, já não é seu.
É um livro já escrito... Concluído.
Como um livro que tivesse sido escrito por você, ele um dia lhe será lido,
com todos os detalhes e você não poderá corrigi-lo. Estará fora de seu
alcance.
Portanto, antes que 2012 termine, reflita, tome seu velho livro e folheie
com cuidado.
Deixe passar cada uma das páginas pelas mãos e pela consciência. Faça o
exercício de ler a você mesmo. Leia tudo...
Aprecie aquelas páginas de sua vida em que você usou seu melhor estilo.
Leia também as páginas que gostaria de nunca ter escrito. Não, não tente
arrancá-las. Seria inútil. Já estão escritas.
Mas você pode lê-las enquanto escreve o novo livro que lhe será entregue.
Assim, poderá repetir as boas coisas que escreveu e evitar repetir as
ruins.
Para escrever o seu novo livro, você contará novamente com o instrumento do
livre arbítrio, e terá para preencher, toda a imensa superfície do seu
mundo.
Se tiver vontade de beijar seu velho livro, beije-o.
Se tiver vontade de chorar, chore sobre ele e, a seguir, reflita, para não repetir o que te faz chorar,
a menos que seja de alegria!
Ainda que tenha páginas negras, elas sempre serão um aprendizado .
E, quando 2013 chegar, lhe será entregue outro livro, novo, limpo, branco,
todo seu, no qual você irá escrever o que desejar...
Capriche na escrita...
 Desconheço o autor do texto

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O tempo passa? Não passa

                                                             O Tempo passa? Não passa      

no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.
O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima
de mãos e olhos, na luz.
Não há tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.
O meu tempo e o teu, amada,
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.
São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer a toda hora.
E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade,
pois só quem ama escutou
o apelo da eternidade.
Drumond