
Passou por mim, olhando com toda força. Eu sabia que não era para mim que ele olhava de verdade. Deu as costas e saiu sem pressa como se seus passos divagassem em pensamentos pausados, inconclusos, incertos. No que ele pensava? Estacou, olhou à esquerda e entrou num corredor cheio de salas. Parou em frente a uma delas, riu um riso gostoso, insinuante, embora discreto. Da sala, saiu uma mulher com pouco mais de um metro e sessenta e cinco, mas que de salto parecia colossal! Não era magra. Seu vestido desenhava seu corpo até um pouco abaixo do busto e depois era só liberdade, bem solto, entregue às intenções do vento que brincava com o perfume dela também. Ele a vislumbrava e sentia um cheiro meio doce de especiarias a envolvê-lo. Fragrância de outras épocas, de muito longe. "Tão irreal", pensou suspirando olores. Ela sorria ingenuamente, atraida por uma força estranha. Conversaram sem palavras. Sentiram o cheiro um do outro. Beijaram-se na face, contendo os ânimos calorosos. ambos tinham as convenções sociais como guia e as ignoravam instintivamente diante das imaginações na velocidade da luz, entre sorrisos e gracejos. Era impossivel não perceber as sensações alquímicas que os enlaçava. Subitamente, como quem acorda de um pesadelo, olharam-se e tiveram um choque. Saíram antes de serem petrificados um pelo outro. Os olhos se despediram aliviados porque estavam voltando para suas respectivas casas e lá, somente lá, encontrariam a calma de um lar doce lar que os esperava cada qual a seu modo. Mas eles não contavam que lá no interior de si mesmos, onde ninguem os pode proteger, já tivera se instalado um incomodar latejante. E eles foram embora sem trocar uma palavra sequer. Cada um levava na memória o que havia se eternizado no passado... E foi assim que percebi que o amor não se acaba...adormece.