quarta-feira, 19 de maio de 2010

Desde os anos 80 eu colecionava as crônicas de um grande escritor norteriograndense chamado Vicente Serejo. Certo dia, lá em Assu, eu pedi a Gilson Moura, que na época era radialista da Pricesa do vale, para que me apresentasse ao Serejo. Isso nunca aconteceu. Só sei que eu tenho várias crônicas coladas nos cadernos da faculdade. Engraçado que tem uma que eu jurava que ele tinha escrito pra mim. Imagina!!! Que presunção a minha. É que até o titulo era como se apenas poucas pessoas lessem aquelas crônicas. Ah, eu aguardava ansiosa o dia seguinte para ler o Diário de Natal. Vocês já devem saber que hoje vou postar uma Crônica dele. Não liguei pedindo autorização mas vou postar mesmo assim. É linda!!!!!!!!!!!!!!!!!

COMO UMA CAMPONESA
Deve ser essa minha alma romântica, imprestável, deve ser. Essa minha alma de soneto parnasiano, essa alma sem graça, a última, talvez, que ainda se deixa levar pela beleza da tarde. E as tardes caem em mim tão belas que até parecem contidas daquela beleza das mulheres que se vestem de camponesa e amam com seus olhos tímidos. Pobre de mim, certamente, que não nasci moderno em nada. E não sendo, por não ter nascido, perdi de ser, entre os eleitos, ao menos, um aprendiz. Fiquei só com os meus eus. Os que são também os eus de todo mundo: os olhos, os ouvidos, a boca, os braços e as pernas nos gestos do viver.
E se há em mim a vaidade do silêncio, certas horas, é porque o próprio silêncio é a grande e única verdade desejada. Silêncio de saber ser ou de ter sido. O silêncio de certeza de que nunca será. E confesso mesmo, já que a própria tarde se abre em confissão: tenho apenas comigo, entre os lençois da alma, os sonhos que eu mesmo colecionei. E, se mais confesso, é só pra dizer que se fosse mercador também teria perdido meus navios. Fossem do que fossem feitos esses navios. Se eu vendesse segredos seriam ainda mais pobres porque se há segredos pobres são os meus. E tão pobres que uma vez confessados não seriam manchetes de jornal, nem nota de pé de página, nem nada. Fora, definitivamente, do mundo dos homens práticos e objetivos, terminei por não aprender a tempo a pôr o próprio mundo no seu lugar. Virei, mexi, e perdi os caminhos. E por desconfiar que só os desejos realizam os sonhos, ando desejando o que me foi de direito sonhar mesmo sabendo que são apenas sonhos, sempre sonhos. Ora, como a vida é fácil para os tolos! A eles viver é fácil que parecem livres da paixão, da dor, do prazer, do tédio e da angústia. Eles são alegres, de uma alegria sem fim, de um alarido invencível. Como se a vida fosse sempre alegre. E tanto pior, como se a alegria fosse assim uma espécie gordurosa de feijoada em conserva. E como não há a quem comunicar as angústias de uma alma gorda e triste, tomo para mim os olhos dos meus pouquissimos leitores como se neles fosse possível pregar as minhas confissões. É que escrevo aqui todos os dias e as vezes penso que estamos todos, eu e meus pouquissimos leitores, numa sala de jantar conversando como amigos. Quem sabe, ora, não é assim mesmo! Se tenho pouquissimos leitores talvez possa mesmo encontrá-los em redor da mesa . Diante de um bom vinho, de um queijo forte, de um pão de trigo, de um charuto. E alí, naquela mesa, ficássemos como se todos esperassem a tarde. Levemente. Suavemente. Como se todos tocassem a pele com seus próprios lábios. Uma tarde azul e tão bonita como as mulheres que se vestem de camponesa e amam com seus olhos tímidos. Vicente Serejo.
E aí gostaram? Aqui a tarde está linda!!!!!!!!!!! Se veste toda de azul. Não é a mesma tarde da terra dos poetas. É uma tarde diferente de outras tardes que viví. Bjs para todos vocês. Ainda continuo querendo conhecer o autor da crônica.

2 comentários:

  1. poxa muito linda, encontrei um lugar onde me refugiar, e na proxima vez q gilsom moura vier aqui vou cobrar dele kkkk
    um bjo e um abraço bem forte.

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